A indústria de games fechou o segundo trimestre de 2026 com US$ 2,3 bilhões em fusões e aquisições, o chamado M&A, sigla em inglês para mergers and acquisitions, que reúne operações em que uma empresa compra outra, se funde com ela ou adquire participação relevante em seu capital. O trimestre somou 54 transações desse tipo, o volume mais alto desde 2022, segundo o Video Game Market Update da consultoria de investimentos Aream & Co. Dias depois de o relatório circular pela imprensa especializada internacional, a indústria oferece a prova viva do mesmo fenômeno: nesta terça-feira, 4 de agosto, está previsto o fechamento da compra da Electronic Arts pelo consórcio liderado pelo fundo soberano saudita PIF, uma única operação avaliada em US$ 55 bilhões, mais de 20 vezes todo o volume de M&A registrado pela Aream para o trimestre.
Um trimestre mais fraco que parece, à primeira vista
O total de US$ 2,3 bilhões é bem inferior aos US$ 7,7 bilhões do primeiro trimestre de 2026. Isolada, essa comparação sugeriria um mercado esfriando. Mas o dado do Q1 carrega um outlier que distorce qualquer leitura direta: cerca de US$ 6 bilhões daquele total vieram de uma única operação, a compra da desenvolvedora mobile Moonton pela Savvy Games Group. Retirado esse outlier, o segundo trimestre representa, na prática, uma base de negócios mais distribuída, não uma desaceleração real.
As duas maiores transações do período ilustram esse padrão. A Scopely, estúdio mobile controlado pela própria Savvy Games Group, fechou a compra da Loom Games por cerca de US$ 1 bilhão. Em paralelo, o fundador da desenvolvedora sul-coreana WeMade, Park Kwan-ho, vendeu sua participação de 35% na empresa ao grupo chinês NeoPulse, em uma operação avaliada em torno de US$ 591 a 597 milhões, a depender da fonte consultada.
O que chama atenção no relatório da Aream, porém, não são essas duas operações isoladas, e sim o comportamento agregado abaixo delas: aquisições de estúdios acima de US$ 100 milhões atingiram o maior número desde o boom da pandemia, puxadas por negócios no segmento PC, como Playstack e Fenris Creations/CCP, e por estúdios mobile de porte médio. É esse mid-market, e não os mega-deals, que sustenta a leitura de recuperação da consultoria.
O outro lado do dinheiro: onde o capital privado está indo
Fora do M&A propriamente dito, o investimento privado, rodadas de capital sem mudança de controle, somou US$ 3,1 bilhões em 108 negócios no trimestre. Boa parte desse volume não foi para desenvolvimento de jogos, mas para tecnologia adjacente ao setor: adtech e inteligência artificial concentraram as maiores captações, incluindo uma rodada relevante da AppsFlyer, apoiada por nomes como Moloco, DeepMind, Meta e Unity.
Enquanto isso, os indicadores operacionais do segmento que mais gera receita recorrente, o mobile, seguem em queda: a receita de compras dentro de aplicativos caiu 4% na comparação anual, e o número de instalações recuou 12%, atingindo os menores patamares em anos. Já a receita em PC via Steam cresceu 13% no mesmo período, puxada por sequências de franquias consolidadas e novas propriedades intelectuais.
Em conjunto, esses números apontam para um mercado que está redistribuindo capital: menos dinheiro apostando no crescimento orgânico do consumo mobile, mais dinheiro comprando presença consolidada em PC, propriedade de estúdios de médio porte, e infraestrutura tecnológica ao redor dos jogos, não os jogos em si.
Uma semana que resume o trimestre inteiro
O fechamento da compra da EA, coberto pelo Underscore desde o início de agosto, funciona como uma lente de aumento sobre esse mesmo padrão. A operação, estruturada com cerca de US$ 20 bilhões em dívida e que deixa a PIF com 93,4% da empresa, representa sozinha um valor superior a 20 vezes o total de M&A do trimestre inteiro relatado pela Aream, evidência de como poucas operações de fundos soberanos e private equity concentram uma fatia desproporcional do capital que circula pela indústria.
Uma newsletter independente do setor, a Business of Games, registrou em sua edição desta segunda-feira um contraste que ajuda a visualizar esse desequilíbrio: na mesma semana do fechamento bilionário da EA, a única captação de capital divulgada publicamente na indústria foi uma rodada de US$ 3,2 milhões para a ForgeGUI, startup de geração de assets via inteligência artificial para Roblox e UEFN. É um dado pontual, de uma única semana e de uma única fonte, sem pretensão estatística, mas ilustra, de forma concreta, a distância entre os dois extremos do mercado: de um lado, operações bilionárias movidas por fundos soberanos; de outro, um mid-market e um estágio inicial de captação cada vez mais escassos.
É esse o retrato que os números do segundo trimestre e o fechamento desta semana, juntos, deixam mais claro do que qualquer um dos dois isoladamente: mais do que crescer ou esfriar, o mercado de M&A em games passa a operar sob lógicas cada vez mais distintas conforme o perfil dos ativos e dos investidores, com poucas operações bilionárias concentrando capital de um lado e um mid-market seletivo, cada vez mais dependente de teses específicas, do outro.
