ILAE lança agenda nacional para os esports brasileiros até 2031

Brasil ganha agenda para esports enquanto governo ainda estrutura política nacional para o setor

O Instituto Latino-Americano de Esports (ILAE) lançou, em 4 de agosto, a Agenda Nacional para o Desenvolvimento dos Esportes Eletrônicos no Brasil 2027–2031, documento de 139 páginas disponibilizado gratuitamente e dirigido a candidatos às eleições deste ano, parlamentares, gestores públicos e representantes da indústria. A publicação chega num momento específico: o Brasil está entre os maiores mercados consumidores de games do mundo, já tem uma diretoria federal dedicada a e-sports e uma subcomissão parlamentar ativa sobre o tema, mas ainda não possui uma política nacional integrada nem indicadores oficiais que consolidem esses esforços dispersos.

O que o documento propõe

A agenda organiza suas propostas em seis frentes: panorama nacional dos esports, modelos de governança, mecanismos de financiamento, experiências internacionais comparadas, indicadores de desempenho e ações prioritárias para o período entre 2027 e 2031. Entre as medidas concretas listadas estão a criação de um sistema nacional de informações sobre o setor — hoje inexistente —, o fortalecimento da pesquisa científica ligada aos esports, a implantação de centros públicos especializados de treinamento e a ampliação de programas de formação profissional.

O documento também relaciona os esportes eletrônicos a áreas como educação, ciência, tecnologia, cultura, empreendedorismo e economia criativa, com sugestões organizadas por nível de governo — uma tentativa de oferecer material de trabalho tanto para prefeituras quanto para o Congresso Nacional. A proposta dialoga diretamente com um problema que o mercado brasileiro de games já enfrenta como um todo: crescimento acelerado sem a infraestrutura institucional necessária para sustentá-lo.

Uma ferramenta técnica, não uma política pronta

Carlos Gama, presidente do ILAE, afirmou que os esportes eletrônicos já ocupam espaço relevante na economia digital, na inovação, na educação e na cultura brasileiras, mas que o país “ainda carece de políticas públicas estruturadas” para transformar esse potencial em desenvolvimento efetivo. Segundo Gama, a agenda foi pensada como base técnica para candidatos e futuros gestores públicos — não como um programa de governo fechado.

Essa distinção importa. O ILAE é uma organização da sociedade civil, sem poder normativo: o documento não tem força de lei, não obriga nenhum órgão público e depende inteiramente de adesão política para sair do papel. O próprio instituto reconhece isso, tratando a publicação como instrumento para estimular diálogo entre autoridades e o ecossistema competitivo — não como decisão já tomada.

Um debate que já começou, mas nunca convergiu

A ideia de que os esports brasileiros vivem num vácuo institucional completo não resiste a uma checagem mais cuidadosa. O Congresso já discute o tema há anos: uma primeira Subcomissão Especial dos Esportes Eletrônicos funcionou entre 2023 e 2024, ouviu jogadores, desenvolvedores, professores e patrocinadores, e encerrou os trabalhos em dezembro de 2024 recomendando a aprovação do PL 70/22, que regulamenta a atividade esportiva eletrônica no país. O projeto, no entanto, segue parado desde então na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, aguardando parecer do relator.

Em abril de 2025, a Comissão do Esporte aprovou a criação de uma segunda Subcomissão Especial dos Esportes Eletrônicos, desta vez por iniciativa do deputado Coronel Chrisóstomo (PL-RO), presidente da Frente Parlamentar em prol dos Jogos Eletrônicos e Games. Segundo o painel oficial de subcomissões da Câmara, ela segue em funcionamento até agora, com prazo prorrogado — o que indica que o Legislativo não abandonou o tema, apenas não conseguiu transformar anos de audiências e relatórios em lei.

Do lado do Executivo, o movimento mais recente também aponta para uma atenção crescente, ainda que fragmentada. Em maio deste ano, o Ministério do Esporte oficializou Cadu Albuquerque, até então presidente da Federação do Estado do Rio de Janeiro de Esportes Eletrônicos, como novo diretor de e-sports do país — cargo alocado dentro da Secretaria Nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte. Em abril de 2026, o próprio ministério firmou um acordo de cooperação técnica com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) para tratar de integridade e concorrência no esporte, citando explicitamente os esports como um segmento emergente que envolve organização de competições, plataformas e ativos digitais.

O quadro que emerge, portanto, não é de vácuo, mas de dispersão: há uma diretoria federal, uma subcomissão parlamentar ativa, um projeto de lei parado na CCJC e agora um acordo de cooperação com o CADE — peças que tratam do tema separadamente, sem se somar a uma política nacional coordenada. É exatamente nessa lacuna de coordenação, e não na ausência de debate, que a agenda do ILAE tenta se inserir. Ao mirar diretamente candidatos e parlamentares no ano eleitoral de 2026, o instituto aposta em oferecer o documento que amarraria essas iniciativas dispersas — formação profissional, financiamento, indicadores, integridade — numa política única. Se essa tentativa avança para além do lançamento é algo que só a atenção de candidatos e gestores públicos, nos próximos meses, poderá confirmar.

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