A Electronic Arts está prestes a deixar de ser uma empresa de capital aberto. Em comunicado enviado à SEC no fim de julho, a publicadora confirmou que todas as aprovações regulatórias necessárias para concluir sua venda a um consórcio liderado pelo fundo soberano saudita PIF foram obtidas, e que a operação de US$ 55 bilhões deve ser concluída no fechamento do pregão de 4 de agosto de 2026. Encerram-se, assim, 35 anos da EA como companhia listada na Nasdaq, e se consolida a maior operação de aquisição alavancada (LBO) já registrada, em qualquer setor da economia.
Pelos termos do acordo, os acionistas da EA recebem US$ 210 por ação em dinheiro. A composição societária pós-fechamento já é conhecida desde dezembro de 2025, quando um filing regulatório revelou a divisão entre os três compradores: o PIF (Public Investment Fund) fica com 93,4% da empresa, a gestora de private equity Silver Lake com 5,5%, e a Affinity Partners, firma fundada por Jared Kushner, com 1,1%. Na prática, a Arábia Saudita passa a deter controle majoritário sobre uma das maiores editoras de games do mundo, dona de franquias como EA Sports FC, Madden NFL, Battlefield, Apex Legends e The Sims.
Uma operação aprovada há meses, mas travada pela segurança nacional
O negócio foi anunciado em 29 de setembro de 2025, e a aprovação dos acionistas veio rápido: em 22 de dezembro daquele ano, cerca de 99% dos votos foram favoráveis à venda. O que atrasou o fechamento por mais de sete meses não foi resistência do mercado financeiro, e sim o funil regulatório. A liberação antitruste nos Estados Unidos veio primeiro; a revisão de concorrência da União Europeia se encerrou em 22 de julho de 2026, dentro do prazo; a análise europeia de subsídios estrangeiros tinha data-limite em 30 de julho.
A peça que faltava, e a mais imprevisível, era a revisão do CFIUS, o comitê americano que analisa investimentos estrangeiros sob a ótica de segurança nacional. O escrutínio se concentrou num ponto específico: o que significa um fundo soberano estrangeiro assumir controle majoritário sobre uma empresa que administra dados de centenas de milhões de contas de jogadores.
A aprovação, anunciada junto com o restante do pacote regulatório em 30 de julho, indica que o comitê considerou os mecanismos de mitigação apresentados suficientes — mas o próprio fato de essa ter sido a etapa mais longa do processo já sinaliza que operações desse tipo, envolvendo capital soberano e bases de dados massivas de consumidores, tendem a receber esse nível de escrutínio como padrão daqui para frente, não como exceção.
O calendário original previa fechamento até 30 de junho de 2026, prazo que não foi cumprido. O contrato tem uma data-limite estendida em 28 de setembro, uma margem que, mesmo com o comunicado de aprovação total, reconhece a possibilidade de novos imprevistos até a data marcada.
A dívida por trás do maior LBO da história
A estrutura de capital da operação combina cerca de US$ 36 bilhões em equity, aportados pelo próprio PIF, Silver Lake e Affinity Partners, incluindo uma posição rollover de 9,9% que o fundo saudita já mantinha na EA, com US$ 20 bilhões em dívida, liderados pelo JPMorgan Chase, dos quais US$ 18 bilhões devem ser desembolsados no fechamento.
Uma nota da agência de análise de crédito Octus, divulgada em torno da aprovação final, projeta que a alavancagem pro forma da EA sobe para 7,4 vezes seu fluxo de caixa após a operação, com a cobertura de juros por fluxo de caixa livre comprimida para abaixo de 2 vezes. São indicadores típicos de uma estrutura financeira de alto risco — o tipo de métrica que, historicamente, precede pressão por corte de custos para sustentar o serviço da dívida.
Essa pressão já tem histórico concreto na EA. A empresa eliminou mais de 1.700 posições desde 2023, e promoveu uma nova rodada de cortes em junho de 2026, atingindo equipes de recrutamento, suporte ao cliente, “trust and safety” e TI — incluindo o escritório de Hyderabad, na Índia, segundo apuração da Kotaku com funcionários afetados e um e-mail interno enviado à equipe de atendimento a fãs.
O alerta que o Congresso americano já havia feito
Em janeiro de 2026, 46 deputados democratas, liderados pelos copresidentes do Labor Caucus da Câmara, enviaram uma carta formal ao presidente da FTC pedindo investigação sobre a operação. O texto citou diretamente o histórico de demissões da EA e a queda no salário mediano dos trabalhadores como sinais de “limitada pressão competitiva para reter talento”, e alertou para o risco de que a estrutura de dívida da operação incentive novos cortes, reestruturações ou fechamentos de estúdios.
Um ponto específico da carta vai além da EA isoladamente: a PIF não é uma investidora estreante no setor. O fundo já mantém posições em Nintendo, Capcom, Nexon, Take-Two e Koei Tecmo. Para os signatários, essa sobreposição de participações levanta “sérias preocupações sobre diretorias interligadas e propriedade comum entre publicadoras concorrentes” — um risco de concentração que, segundo a carta, mereceria análise antitruste própria, independente da revisão já concluída da operação. Não há, até o momento desta apuração, resposta pública da FTC, da EA ou da PIF a essas alegações especificamente.
O que muda, e o que a EA diz que não muda
Nos comunicados públicos que acompanharam as etapas do processo, a EA afirmou que manterá “controle criativo” sobre suas franquias e que não prevê demissões “imediatas” decorrentes da transição. O CEO Andrew Wilson permanece no cargo, e a sede segue em Redwood City, na Califórnia. Para o consumidor, a expectativa declarada pela própria empresa é de continuidade operacional: os jogos, os estúdios e a estrutura de publicação seguem funcionando como antes do fechamento.
A diferença estrutural não está no dia a dia imediato do jogador, mas na arquitetura de propriedade e financiamento por trás da empresa que publica alguns dos jogos mais jogados do mundo. Uma editora que respondia a acionistas dispersos no mercado aberto passa a responder a um controlador majoritário único e a credores que financiaram parte considerável da própria compra.
Por que a compra da EA cria um precedente para toda a indústria
O que torna esta operação um marco não é o valor em si, embora US$ 55 bilhões já bastasse para eleger a EA o maior LBO da história registrada. É a combinação de três fatores que raramente aparecem juntos: controle majoritário de uma editora americana de grande porte por um fundo soberano estrangeiro, financiamento predominantemente alavancado por dívida, com indicadores de risco que a própria análise de crédito do mercado já sinalizou, e um histórico recente e documentado de cortes de pessoal que antecede o fechamento.
Cada um desses fatores, isoladamente, já teria justificado atenção. Juntos, formam um precedente que o setor de games provavelmente vai revisitar toda vez que um fundo soberano ou um grupo de private equity avaliar a compra de outra publicadora de capital aberto: quanto tempo um processo regulatório como o do CFIUS deve levar quando o ativo em jogo administra dados de centenas de milhões de usuários, e até que ponto a estrutura de financiamento de uma aquisição desse porte deveria ser parte do debate público sobre o futuro dos empregos na empresa comprada, não apenas um detalhe técnico do fechamento do negócio.
