A Electronic Arts deixou de ser uma empresa de capital aberto nesta terça-feira, 4 de agosto. A publisher confirmou a conclusão da aquisição por um consórcio formado pelo fundo soberano saudita PIF, pela gestora Silver Lake e pela Affinity Partners, avaliada em US$ 55 bilhões, a maior operação de leveraged buyout já realizada na indústria de games. O negócio encerra 37 anos de EA como companhia listada na Nasdaq, período que começou com sua estreia em bolsa em setembro de 1989.
Segundo o comunicado oficial da EA, a operação foi aprovada por todos os órgãos reguladores necessários, com a União Europeia sendo o último obstáculo superado antes do fechamento. Pelo acordo, os acionistas receberam US$ 210 por ação em dinheiro, um prêmio de 25% sobre o valor de fechamento da ação em 25 de setembro de 2025, data anterior aos primeiros rumores da transação.
“Este momento reconhece as pessoas extraordinárias cuja criatividade, ambição e paixão fizeram da EA uma das líderes mundiais em entretenimento interativo”, afirmou Andrew Wilson, presidente do conselho e CEO da EA, em comunicado. Wilson permanece no comando da companhia, que continuará sediada em Redwood City, Califórnia. Não há, até o momento, anúncio de mudanças na estrutura de liderança ou nas operações do dia a dia.
Um controlador concentrado no lugar do mercado acionário
A composição societária resultante do negócio concentra o controle da EA de forma acentuada: o PIF fica com 93,4% do capital, a Silver Lake com 5,5% e a Affinity Partners com 1,1%, segundo documento apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC). É uma mudança estrutural relevante. A EA passa de uma base acionária pulverizada, sujeita à pressão trimestral típica de empresas listadas, para um controlador único e concentrado, com horizonte de investimento historicamente mais longo, característico de fundos soberanos.
O consórcio já vinha sinalizando essa lógica de longo prazo antes mesmo do fechamento: Turqi Alnowaiser, vice-governador do PIF, descreveu a EA como uma “plataforma única”, citando as franquias esportivas e de games do portfólio como parte do interesse estratégico do fundo em entretenimento e esportes, setores que o PIF classifica como prioritários dentro da diversificação da economia saudita prevista na Visão 2030. O fundo já era investidor minoritário da EA havia mais de cinco anos antes de assumir o controle majoritário, o que reduz a leitura da operação como uma entrada oportunista e reforça a hipótese de posição estratégica de longo prazo.
O acordo original foi assinado no fim de setembro de 2025 e aprovado pelos acionistas da EA em assembleia especial realizada em 22 de dezembro daquele ano. O fechamento, inicialmente previsto para 30 de junho de 2026, atrasou em função de revisões antitruste e de segurança nacional em diferentes jurisdições, um processo que gerou resistência política nos Estados Unidos, em parte pela presença do PIF e em parte pela participação da Affinity Partners, gestora fundada por Jared Kushner. Nenhuma dessas objeções, porém, impediu a conclusão do negócio.
O momento operacional da EA por trás do negócio
A conclusão da aquisição chega em um período de reestruturação da publisher. Nos últimos anos, a companhia registrou demissões, fechamento de estúdios, cancelamento de projetos e a suspensão da franquia Need for Speed, um padrão de ajuste que já vinha sendo acompanhado pelo mercado antes mesmo do anúncio da venda. Ao mesmo tempo, a EA colheu resultado comercial relevante com Battlefield 6, lançado em outubro de 2025, um dos títulos de maior desempenho da publisher no período recente. A companhia fechou o ano fiscal de 2026 com receita líquida GAAP de aproximadamente US$ 7,5 bilhões.
É nesse contexto que a mudança de controle ganha peso estratégico: uma publisher que já vinha ajustando estrutura de custos passa a responder a um acionista concentrado, sem a exposição trimestral do mercado de ações, mas também sem a camada de transparência que a listagem pública impõe, como divulgação obrigatória de resultados, escrutínio de analistas e voto pulverizado de acionistas. Essa troca de regime de governança é o efeito mais concreto da operação, independentemente de qualquer expectativa sobre o que o novo controlador fará com o portfólio da EA.
A operação também marca um novo patamar para a presença de capital saudita na indústria de games. O PIF vinha ampliando posições no setor havia anos por meio de participações minoritárias em outras empresas globais de entretenimento digital. A aquisição integral da EA é, até aqui, o movimento mais direto dessa estratégia, e estabelece uma referência de tamanho (US$ 55 bilhões) para operações semelhantes que outros fundos soberanos ou consórcios de private equity possam considerar no setor daqui em diante.
